O preconceito é uma das formas mais virulentas de discriminação que o homem é capaz de produzir.
Há séculos que ele vem causando mal as pessoas atingidas, se manifestando através de diferenças raciais, socioeconômicas, físicas, culturais e religiosas.
A Umbanda sofre há muito tempo com isso.
Desde sua fundação vem sendo perseguida e humilhada.
No começo ,quando era pouco conhecida ,por ações policiais, quando batidas eram feitas em casas de culto ocasionando fechamento delas e a prisão de seus integrantes.
Com o Estado Novo, ela tem a tolerância das autoridades obtida pela necessidade do governo em enaltecer a misticidade do nosso povo como forma de resgatar em nossa mentalidade que, apesar de mestiços éramos fortes e capazes de produzir, crescer e transformar nosso país em uma grande nação.
Passada esta fase, volta a sofrer ataques da igreja católica e mais recentemente das igrejas evangélicas com a acusação de satanismo e práticas voltadas para o mal.
Acho que já esta na hora de nós Umbandistas refletirmos porque passados cem anos continuamos a sermos perseguidos e discriminados a ponto de alguns de nós sentir vergonha de nos declararmos com medo de represálias preconceituosas, no trabalho ou em qualquer atividade como cidadãos.
Pensando nisto e em nossa história de luta e busca por afirmação e reconhecimento resolvi colocar estas linhas para reflexão.
A Umbanda é uma religião brasileira, aqui ela nasceu se desenvolveu e adquiriu maturidade. Atualmente é praticada por brancos, negros e mestiços, representando a pluralidade racial de nosso povo. Getulio Vargas estava certo, nos tornamos uma grande nação, mas nós umbandistas continuamos vítimas do preconceito, por quê?
Continuando com meus pensamentos tentando descobrir onde está causa disto tudo me deparo com uma idéia que martela sem cessar, me recuso a princípio a aceitar o que me vem na cabeça, mas sou obrigado a me render diante das evidencias, a realidade surge e tudo fica muito claro. Descubro muito a contragosto que a causa do preconceito que fere nossa religião está em todos nós sacerdotes de Umbanda.
Estarrecido me dou conta de que nós com nossas ações dentro e fora dos nossos terreiros somos os responsáveis.
Ao não abrirmos nossos rituais e trabalhos a vista da população, nos fechando em mistérios em nossas práticas, não ministrando adequadamente a nossa doutrina de Amor ao Próximo, Fé e Caridade e, principalmente, não tendo cuidado e atenção na escolha e preparação de nossos sacerdotes, contribuímos para que nossa religião seja confundida com outras práticas que se apropriam do nome Umbanda.
A sociedade julga o que vê, cabe a nós esclarecê-la para que não se confunda e saiba realmente o que é a Umbanda.
Cabe a nós sacerdotes ministrar cultos sadios, voltados para o bem e os bons costumes, com práticas que elevem a espiritualidade daqueles que nos procuram, sanando suas dificuldades, auxiliando em seu desenvolvimento moral e espiritual.
Assim e acreditem só assim, com o passar do tempo, nossa religião receberá o respeito, o reconhecimento e a admiração de nossa sociedade.
Muito tenho ouvido de diversas fontes sobre as linhas que assumem cabeça de filhos na Umbanda.
Há opiniões divergentes sobre elas e o assunto é polemico.
O Zélio de Moraes quando começou a Umbanda, não cultuava Oxum e, só para citar um exemplo, cultuava Exú como Orixá.
Existem terreiros, por exemplo, que colocam Iansã como falange de Xangô.
Diversidades a parte, na casa onde eu comecei, a Tenda Espirita São Sebastião, em Curitiba, os Orixás que assumiam cabeça dos filhos eram Oxalá,Xangô,Ogum,Oxóssi,Yemanjá,Africano e Oriente.
Já no Terreiro Pai Maneco, onde trabalhei por quase vinte anos como dirigente de gira, Iansã e Oxum assumiram no lugar de Africano e Oriente, permanecendo os demais Orixás.
Isto sem falar nas casas que cultuam Yori e Yorima.
Nestas casas Oxum e Yansã, não assumem cabeça.
No Rio de Janeiro muitas casas incluem Nanã Buruque, pois consideram que Oxalá não assume a cabeça apenas de alguns filhos, já que obedecendo ao sincretismo de Oxalá com Jesus Cristo todos nós seríamos filhos de Oxalá.
Aliás tenho muita simpatia por esta forma, já que me mantenho fiel ao sincretismo religioso, embora aqui no terreiro cultuemos os orixás como no Terreiro Pai Maneco.
Mas então porque isto acontece?
Fico me perguntando, escutando opiniões, ouço sempre, são sete as linhas de umbanda, são sete os orixás que assumem a cabeça de seus filhos.Vejo dirigentes de casas elaborando formulas e maneiras de enquadrar tudo isto dentro do número sete,com justificativas que as vezes não são, pelo menos para mim, muito plausíveis,tipo:Iansã é uma falange de Xangô, Oxum é uma falange de Iemanjá.
Outros dizem que tem que haver um limitador, como se fosse possível limitar a ação dos Orixás sobre o planeta, enfim nimguém se entende.
Talvez porque não haja algo para ser entendido e sim para ser aceito: 1) é inegável que todos os Orixás atuam sobre o planeta e sobre a natureza dele, incluindo aí todos os seres vivos
2) o número sete é o numero mágico da umbanda e dele fluem vários aspectos mágicos e mistérios do mundo espiritual.
Limitar o numeros de Orixás porque tem que haver um limitador me parece interferencia da mente humana sobre as forças espirituais e sobre as forças que regem a natureza do planeta, deixar de lado determinados Orixás em favor de outros me pareçe uma questão mais pessoal de escolha do que espiritual.
Talvez por isso haja terreiros onde são cultados nove ,dez, as vezes treze Orixás que assumem a cabeças de filhos.
O importante para mim é saber que todos os Orixás cultuados na Umbanda estão aí atuando sobre o planeta atraves dos elementos que lhes cabem por afinidade vibratória.
Todo o resto se resume a uma necessidade, justa diga-se de passagem, de organização dos terreiros, mas é preciso que fique bem claro que nem os orixás e nem o movimento espiritual chamado Umbanda tem alguma coisa a ver com isto.